Meio de informação e divulgação, aberto à iniciativa e participação da comunidade, procurando difundir a actividade local entre 22 de Junho de 2007 a 1 de Outubro de 2013. Obrigado a todos os 75.603 leitores.

Igreja Românica S. Gens de Boelhe (M.N.)
03
Jul 10

Artigo de Opinião

 

A desertificação será uma das ameaças que pairará sobre as aldeias, por ventura uma realidade demasiado próxima. No entanto, existem na actualidade lugares em que se contam pelos dedos das mãos os que ali continuam a viver, entre as casas rurais e encostas do Tâmega. Ainda há os que procuram o sossego e decidem-se por estes locais “adquirindo um terreno” e aí viver os fins-de-semana. Pelo meio, muitas juntas tentam manter os lugares vivos e oferecem subsídios para bebés que por ali nasçam.

  

É preciso domar uma estrada estreita, sob encosta íngreme, caminhos escondidos entre a vegetação, para chegar a lugares reais de um tempo onde os idosos conversam sentados numas escadas, abrem os rostos num sorriso rasgado mas também um olhar desconfiado – não gostam de ver estranhos e sabem quando devem responder a alguma pergunta ou comentário.

Chegou o Verão, agora há os que regressam à terra Natal para passar uns dias ou os que por estas bandas circulam na busca da calmaria que por momentos sentem. “Aqui os ares são melhores, podemos passear à vontade e ainda temos as hortas para cuidar”, afirma quem habita por estes lugares. Novos, nem vê-los, os filhos resolveram partir à procura de melhores condições de vida, porque não há onde ganhar dinheiro, casam e procuram construir nos locais mais próximos do centro da freguesia ou junto da estrada nacional. Na memória permanecem muitas recordações dos tempos em que os lugares transmitiam vida, em que os “buracos” dos caminhos não eram motivo de preocupação, em que as crianças gritavam pelas ruas e as cabeças de gado atravessavam os campos, caminhos ou servidões. Havia alguma “borga”, rapazes e raparigas, música e bailaricos, aliado ao duro trabalhar das terras, ao suor do calor do puxar do arado, transporte apeado de braçados de lenha, erva para o gado ou acartar o leite na leiteira – era bonito de se ver, acrescentam.

Ainda há quem nunca foi à escola nem aprendeu a ler – às escolas vão apenas no dia dos votos. Passaram a infância tal como muitos dos meninos da sua idade a trabalhar no campo ou a cuidar do gado. “A guarda obrigou alguns pais a mandar à escola e aprenderam a ler. Íamos à dúzia, em grupo e a pé.

Lembram-se do Verão a tomarem conta dos rebanhos de todo o lugar, para o resto das pessoas trabalharem as terras. De manhã alguém gritava “soltem o gado”. Os currais abriam-se, juntava-se tudo e à noite, no regresso, cada rebanho sabia onde ficar.

Todas as terras à volta estavam trabalhadas e de lá tirava-se praticamente tudo aquilo que se comia em casa, desde as batatas, os feijões, o milho ou o centeio. A vida não era fácil mas, actualmente não parece estar melhor, quem amealhou tem o seu pertence, quem se acomodou nada faz, nada tem e agem como se nada fosse com elas. Lamentam-se, aproximam-se devegar como quem quer ouvir a conversa, mexericam e criticam por tudo e por nada, trazem uns trocos no bolso para cigarros e café e vagueiam caminho acima, caminho abaixo.

Num chorrilho de histórias sobre lobos, javalis, sobre as idas à escola a pé e sobre as reguadas dadas pela professora “sem alma” que lhe atormentaram os sonhos de criança, apetece aqui permanecer por mais umas horas. Talvez dias não chegassem para registar impressões, recordações da vida que estas pessoas nos oferecem.

Fernando Vieira Rocha  

 

publicado por a nossa terra às 22:43

pesquisar neste blog
 
Julho 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
13
16

18
19
20
21
23
24

25
29
31


links
Força Portugal!
badge
blogs SAPO