Meio de informação e divulgação, aberto à iniciativa e participação da comunidade, procurando difundir a actividade local entre 22 de Junho de 2007 a 1 de Outubro de 2013. Obrigado a todos os 75.603 leitores.

Igreja Românica S. Gens de Boelhe (M.N.)
05
Ago 10

Teresa Soeiro, historiadora, refere a importância outrora da nossa terra, na obra “A cestaria tradicional em Penafiel”.

 

  

Numa breve leitura da obra, entre muitos outros aspectos a acontecimentos históricos, a autora, também docente universitária, relembra um tempo sem plástico nem outros materiais sintéticos, em que o papel era caro, raro e pouco resistente, as necessidades de acondicionamento para deslocação e arrumação dos mais diversos bens tiveram de ser supridas com os recursos acessíveis, fossem eles contentores feitos de pele ou têxteis, recipientes cerâmicos e de madeira, ou a cestaria, presente num sem número de situações de todos os quotidianos.

 

Resumo

É objecto deste estudo a cestaria tradicional da área do Município de Penafiel.

Tentaremos acompanhar o percurso da profissão no tempo longo, encontrar a memória das mais recentes, mas desaparecidas, gerações de cesteiros e acompanhar os últimos e exímios artistas. Identificam-se também as formas e o saber-fazer que caracterizam estes fabricos, com realce para a cestaria de madeira rachada e os açafates de vara fina pintados, ambos no limiar da extinção. 

The purpose of this work is to study the making of traditional basketware in Penafiel district.

We attempted to trace the profession of basket making and its artisans within the background of the local crafts, since the Modern Age. We identified also the forms and know-how which are characteristic, with emphasis on the basketry products made of woven, plaited and checkered ribbon-like strips of peeled off wood, as well as the ancient manufacture of fine painted baskets of woody plant twigs. Both these handicrafts are nearing extinction.

 

O mais conhecido e muito difundido aforismo que se lhe refere, cesteiro que faz um cesto faz um cento, se lhe derem verga e tempo, sublinha a facilidade da execução rotineira da arte, mas o seu frequente emprego com outro valor semântico remete para alguma ambiguidade, frequentemente associada aos homens dedicados a trabalhos profissionais realizados sem grande esforço físico e no espaço doméstico, providos de manha mais do que de músculos.

Ofício de homens, que trabalhavam em casa e realizavam curtas deslocações à residência do cliente, muita vezes isolados e apenas ajudados pela mulher e filhos nas tarefas intermédias de preparação da matéria-prima, nunca o veremos no feminino se estivermos a falar da arte maior de dar forma à cestaria de madeira rachada, trabalhada no banco, a obra dos canastreiros.

As mulheres puderam, pelo menos na segunda metade de século vinte, apenas dedicar-se à confecção de açafates de vara fina, uma produção mais delicada, com materiais ligeiros que dispensam ferramenta mas exigem contagem e gentileza no complexo entrelaçar das varas, tantas vezes finalizado com uma chamativa nota decorativa introduzida pela pintura polícroma.

Já no foral manuelino de Entre-os-Rios, de 1519, encontramos referência quer aos cestos que se vendiam – canastras, cestos redondos, cestos de mão e cestas – pelos quais se cobrava um ceitil, quer a bens acondicionados em cestos para serem comercializados, como por exemplo a fruta e os ovos, que se arrumavam em canastras.

O cesteiro de Boelhe (Carvalhinhas) era em 1988 Agostinho Pinto, de setenta e dois anos, natural de Sande, Marco de Canaveses, mas já recenseado como cesteiro e morador em Souto Velho em 1945. Começara a trabalhar em menino, com o pai, exercia o ofício em casa, apenas ajudado pela mulher e não tinha problema em vender toda a obra, que era a tradicional na região.

Para além da cestaria de madeira rachada, obra do canastreiro ou cesteiro, e dos açafates e demais artigos de vara fina, faziam-se no quotidiano outros trabalhos de cestaria, cabendo a sua execução a não especialistas, o utilizador ou algum vizinho mais habilidoso. Duas peças exemplificam bem este labor, que utiliza frequentemente as varas sem grande preparação: a sibana ou sebe do carro de bois e o covo para a pesca fluvial.

O primeiro deve ser construído expressamente para o carro em que vai ser usado, pelo que muitas vezes era o proprietário deste que pegava na sebe antiga para a replicar. Quando os lavradores não se ajeitavam ou não as queriam fazer, caberia a tarefa ao cesteiro a trabalhar temporariamente na casa. Podia começar por colocar a antiga de pé, no chão, para acertar os elementos verticais, alguns dos quais teriam de bater certo com os buracos dos estadulhos do carro onde depois se fixaria. Também as havia que apenas encostavam aos esdadulhos, por dentro, amarradas a estes com arame ou fiteiras.

Definido o contorno, fixavam-se as peças verticais da estrutura, as latas, que ficavam algo enterradas para se manterem em posição e assim constituir a urdidura, a tecer com varas de salgueiro ou amieiro, demolhadas e por descascar, num vaivém de volta atrás de volta, curvadas sobre si ao chegar às latas da ponta para continuar até atingir a altura pretendida, pré-definida pela das latas, rematada na borda com um entrançado torço. Concluída, devia permanecer no sítio em que se construíra para ganhar cama, ou seja ficar com a modelação pretendida. Muitos cesteiros e lavradores recordam a factura deste elemento do carro, próprio para as cargas mais miúdas ou mesmo para o estrume, mas reconhecem que há décadas se viu substituído por tapamentos de tábuas, mais fáceis de obter.

O covo é uma arte de pesca para ser colocada no rio isolada e iscada, presa a qualquer elemento fixo da margem. A nosso pedido, um pescador da borda do Tâmega (Boelhe) voltou a fabricar, em 1987, um covo tradicional, destinado ao Museu Municipal de Penafiel.  

Trata-se de uma estrutura tronco-cónica de superfície arqueada, que na base circular apresenta uma armadilha reentrante e afunilada, o nasso. A estrutura é de varas grossas de silva a que se retiraram os espinhos, mas com casca. Cada vara é dobrada a meio, formando duas talas da urdidura do covo, e o cruzamento dos respectivos ângulos constitui o vértice da armadilha. Cobre esta estrutura uma tecedura realizada com varas de videira. 

Ler excerto obra “A cestaria tradicional em Penafiel”

 

Sem tempo para quase nada, num tempo actual repleto de ocupação, o reviver da nossa história e dos nossos antepassados, não ocupa espaço, muito menos tempo – lembra-nos como superaram desafios e lidaram com as dificuldades.          

              

publicado por a nossa terra às 22:13

pesquisar neste blog
 
Agosto 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
13
14

15
16
18
19
21

22
23
24
26
27
28

29
30


links
Força Portugal!
badge
blogs SAPO