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04
Jan 08

 

Associação de Desenvolvimento da Freguesia de Boelhe :

Acção Social com alegria

 

A comemorar dez anos de existência, a Associação de Desenvolvimento da Freguesia de Boelhe (ADFB) não poderia ter recebido melhor prenda: a aprovação da candidatura ao programa PARES. Mais que uma prenda, a aprovação foi uma boa nova para uma instituição jovem mas de grande valor.

 

“As instituições de apoio social não podem nem devem ser meros depósitos de pessoas”. A afirmação, dita em conjunto pelos responsáveis pela Associação de Desenvolvimento da Freguesia de Boelhe, o presidente Rui Abrantes e a directora-técnica Elsa Alves, sintetiza o rumo que a ADFB tem tomado nos últimos anos: um caminho de verdadeira acção social.

Elsa Alves (EA) afirma mesmo que o ditado “não lhes dês o peixe, mas ensinai-os a pescar” norteia a instituição, ao passo que Rui Abrantes (RA) assevera que, no que toca ao trabalho social, “nunca está nada acabado, há sempre algo mais por fazer”.

 

Como surgiu a Associação de Desenvolvimento da Freguesia de Boelhe?

 

RA - Sou uma pessoa que tem preocupações de natureza social; por isso, a entrada neste projecto é uma consequência lógica da minha forma de estar na vida. Não é só em Boelhe; em Espinho, onde resido e trabalho, tenho já um longo historial de acção social, pois, entre outros, já exerci a presidência dos Bombeiros Voluntários durante mais de uma década. Não tenho quaisquer ligações familiares àquela terra; não nasci lá e, por isso, não tenho aí raízes. O que se sucedeu foi que passei lá umas férias, gostei e adoptei aquela terra como minha. No entanto, ali permanecendo em fins de semana e férias, fui-me apercebendo que Boelhe, como muitas outras localidades do nosso país, tinha várias carências sociais, entre as quais a pobreza, a saúde, problemas de analfabetismo, de droga, de prostituição, etc.

Juntando esforços de amigos e residentes e correspondendo ao convite que me foi dirigido, decidimos fazer algo em relação a esta situação, e daí o aparecimento da associação. Isto foi em 1997. Até aos dias de hoje, a Associação logrou obter um franco desenvolvimento, sobretudo a partir de 2005, ano em que foi dado um passo importantíssimo. Eu explico: inicialmente, a Associação, por ainda não ser reconhecida como instituição de solidariedade social, viveu “anexada” à Casa do Povo de Peroselo.

A partir de 2005, a Associação autonomizou-se, conhecendo um desenvolvimento significativo, quer por aumento do número de valências, quer de utentes, quer através da implementação de acções de formação profissional que qualificaram e valorizaram dezenas de pessoas na freguesia, desta forma contribuindo para o seu desenvolvimento económico, objectivo que também é prosseguido pela Associação.

 

Tiveram, portanto, uma evolução positiva?

 

RA - No início tínhamos apenas o Centro de Dia; passamos depois a ter Centro de Convívio, Apoio Domiciliário e Actividades de Tempos Livres (ATL). Relativamente ao ATL, inicialmente esta valência teve o apoio do Projecto Atlas; infelizmente, porém, este apoio foi cancelado pelo que se corria o risco de ter que a encerrar, o que era deveras lamentável posto que, por falta de alternativas, esta actividade é uma das carências mais prementes na freguesia.

Para não deixar o programa abandonado, decidimos propor à Segurança Social a celebração de um acordo que nos permitisse prosseguir o trabalho, o que foi conseguido. No entanto, fomos já notificados pela Segurança Social da denúncia desse Acordo, situação que lamentamos, pois seria mais benéfico para as crianças que as actividades só fossem suspensas no final do ano lectivo, em vez de, como está previsto, ser no final do corrente ano civil.

 

Dr. Rui Abrantes - Presidente da Direcção da ADFB

 

A ADFB foi, recentemente, agraciada pelo Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais – PARES. O que significa esta vitória?

 

EA - Uma alegria. Acho que neste momento e neste ano o Pai Natal deixou boas Prendas no sapatinho... Eu quando cheguei em 2005, dei de caras com umas instalações pequenas, que limitavam o nosso crescimento. Isto em 2005, quando ainda não tínhamos bem noção do projecto, da sua dimensão, do nosso limite. A partir do momento em que tomámos consciência da realidade, as instalações tornaram-se insuficientes.

Quando fomos confrontados com Programa PARES, fizemos todos os possíveis para sermos beneficiados, pois era algo que nos daria possibilidades para crescer. E, trabalhámos para conseguir esse apoio, pois é um programa que envolve exigências muito apertadas, num espaço temporal também muito reduzido. Na primeira fase, o nosso projecto não foi aprovado por falta de um documento, mas na segunda, colmatando a lacuna, conseguimos.

O Pares foi aquele sonho tornado realidade; foi percebermos que de uma salinha pequena, de onde começámos, estamos a passar para algo maior, talvez para um hotel (risos).

 

RA - Já trilhámos um longo caminho, mas há ainda muito a fazer. Conseguir a aprovação é já, acredite, um grande feito, pois é um programa que requer grandes exigências, ao nível de documentação, do cumprimento de datas, do financiamento privado, entre outros. Exigências dificílimas de responder, sobretudo porque os prazos concedidos são “inacreditáveis”. Claro que o programa vai abrir novos horizontes, principalmente no que toca à abertura do Lar para a 3.ª idade e creche.

 

Outro projecto ambicioso que vocês têm preparado é o da Quinta. Em que moldes se vai desenvolver essa aposta?

 

EA – Mais uma ferramenta de trabalho, dá-nos a possibilidade de ampliarmos as nossas respostas, pois permite-nos contribuir para a inserção/inclusão social. Na minha perspectiva, a acção social devia estar associada a outras áreas, como por exemplo, o turismo, fomentando sinergias e potenciando benefícios colaterais. Na freguesia, existem várias famílias que sobrevivem apenas com o Rendimento Social de Inserção (RSI). E para essas, é nosso objectivo planear/ criar acções de formação de forma a promover realmente a inserção/inclusão na vida profissional.

Como refere a Legislação em vigor, o objectivo é INSERIR, portanto, não se pode cingir ao subsídio, é preciso desenvolver a entrada dessas famílias na vida activa. As pessoas têm de deixar de ser subsídio-dependentes, é preciso dar-lhes as ferramentas que eles precisam. É como diz o ditado, “não lhes dês o peixe, mas ensina-os a pescar”. Porque esta situação degenera em vícios, prejudiciais para a pessoa, para a família e para a sociedade. A quinta surge exactamente para dar resposta a essa situação: procuramos fornecer ferramentas às pessoas, dando formação profissional, nas áreas da culinária/cozinha e agricultura, por exemplo, sendo adaptados as realidades e oportunidades locais.

Queremos que as pessoas saiam de casa, porque, não sair, só conduz a situações depressivas. Nós temos, na associação, um caso exemplar: temos uma colega que começou por tirar um curso de formação orientado por nós e que agora está a trabalhar connosco.

 

RA - Foi algo que surgiu concomitantemente com a candidatura ao projecto PARES, ou seja, quando ainda desconhecíamos se íamos ser abrangidos ou não. Era uma almofada de segurança, pois, se fossemos contemplados com o PARES, não iríamos avançar, naturalmente, com outra infra-estrutura. Acabamos por ficar com um espaço que, em termos de acção social, significa um incremento fantástico, principalmente ao nível da inclusão profissional, pois é um espaço onde os utentes vão poder ocupar o seu tempo numa área que lhes é conhecida.

Procuramos não desenraizar as pessoas, mas sim integrá-las. As pessoas vão fazer aquilo que sabem e gostam, o que vai fazer com que eles se sintam úteis à sociedade. Os centros de dia não podem ser meros depósitos de pessoas.

 

Acção Social em Portugal

 

Como é que vêem essa situação dos ATL’s?

 

EA - Não vejo com bons olhos a decisão do ministério em suspender a actividade de ATL nas IPSS, a meio do ano lectivo. Se querem prosseguir com esta decisão, que o façam, pelo menos, no final do ano lectivo, porque senão os pais ficam com um imbróglio nas mãos, a quem confiar os filhos?

 

RA - Os tempos livres não são inteiramente ocupados. A razão para esta decisão, na minha opinião é esta: o Estado sente a necessidade de as crianças ficarem mais tempo na escola, porque os pais não podem, pelos seus afazeres profissionais, cuidar delas. O problema é que a escola pública não tem capacidades materiais nem humanas para dar resposta a esta situação. Porque não se trata de ocupar, pura e simplesmente, as crianças: o objectivo é ocupá-las e ensiná-las ao mesmo tempo. A solução passa por uma conjugação de esforços entre as instituições públicas e as privadas.

 

Pegando no exemplo dos ATL’s, como analisam a Acção Social em Portugal?

 

RA - Nunca nada está acabado, há sempre algo por fazer. Os povos evoluem porque sobem os padrões de exigências. A Acção Social reflecte a situação em que vivemos: tempos de maior contenção. O Estado faz o que pode. Se as instituições não prosseguissem o trabalho que têm vindo a fazer, o actual estado da Acção Social estaria muito pior. É natural que o Estado apoie estas instituições privadas, pois já há, da nossa parte, um empenho pessoal e profissional imenso.

 

EA – Reconhecemos a “obrigação” que o País tem por parte União Europeia, devido ao insuficiente número de instituições e, portanto, a preocupação de aumentarmos as mesmas e adaptadas às reais necessidades da sociedade actual. Nesse ponto, totalmente de acordo, estamos a caminhar no bom sentido.

Somando-se o Programa PARES, como mais uma iniciativa merecedora do nosso aplauso, pois utiliza-se o dinheiro do jogo para a acção social. No que diz respeito, à evolução da acção social, impõe-se uma estratégia pró-activa e multidisciplinar, de forma a contrariar a actual tendência atrás referida, que é a de estarmos a alimentar “subsídio dependentes”, em vez de reinserirmos/incluirmos as pessoas.

É premente agir e perceber a nossa realidade, os estudos existem, os números são reais, é necessário intervir no local, com a família. É importante ver, é importante sair do gabinete e vir para o terreno.

  

“Arranque difícil”

 

Elsa Alves, directora-técnica e nutricionista de profissão, relata os primeiros tempos da associação, quando tiveram de ultrapassar alguns preconceitos, até momentos actuais, quando já não têm mãos a medir no que toca a pedidos.

 

Como foram os primeiro dias da Associação?

 

Foi difícil integrar a associação na sociedade, porque éramos vistos como “a casa dos pobres”. Tivemos que abrir as nossas portas (aliás, o nosso lema é mesmo ter as porta abertas), chamar as pessoas para a nossa casa. Organizámos um lanche onde convidamos todos os habitantes com idade superior a 65 anos, de forma a apresentar a nossa Instituição, mostrar o que fazemos e do que somos capazes. E a partir deste momento começámos a construir uma relação saudável e a atrair a população onde estamos inseridos.

 

Actualmente, como caracteriza o dia-a-dia na ADFB?

 

Nós trabalhamos com os nossos utentes, e não para os nossos utentes. Isto significa que temos consciência que são pessoas, que devem ser tratadas como tal. A associação não pode nem deve ser um depósito de pessoas.

Nós, actualmente, estamos com a "lotação esgotada", por assim dizer. Ou seja, não temos mais capacidade para receber condignamente mais utentes. O mesmo se passa com o serviço de fim-de-semana: neste momento, estamos a atender dez pessoas, mas queremos duplicar este número. Portanto, é no fundo percebermos que começámos com meia dúzia de utentes e, neste momento, encontramo-nos perto dos 85 utentes.

 

Quantos elementos constituem o corpo da associação?

 

Para além da direcção, neste momento temos uma cozinheira, duas técnicas de auxílio directo, uma animadora social, uma monitora de ATL e uma auxiliar de serviços gerais. Estabelecemos, recentemente, um acordo com o Instituto de Emprego e Formação Profissional e recebemos um Estagiário Profissional em Sociologia.

 

Mensagem de Natal

 

O Presidente da ADFB, Rui Abrantes, advogado de profissão, não quis deixar passar em branco a proximidade da época natalícia, deixando uma mensagem de Natal para todos, com votos de um futuro mais equilibrado, justo e solidário.

 

Esta entrevista foi realizada e publicada no diário "O Primeiro de Janeiro" - edição de 22/Dez.07

- poderá aceder na íntegra in: http://www.oprimeirodejaneiro.pt/?op=artigo&sec=a1d0c6e83f027327d8461063f4ac58a6&subsec=e97c864e8ac67f7aed5ce53ec28638f5&id=66ae76a0b6a8096782d397b4d0ed4b0a

 

publicado por a nossa terra às 19:01


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